Por que eu não sou hacker, nem cientista de dados.

Semana passada eu estive no primeiro encontro de um grupo novo que está se
formando aqui em Porto Alegre chamado RS Data Science. Apesar da chuva forte,
várias pessoas compareceram ao evento e puderam mostrar e falar sobre os seus
variados projetos e áreas de pesquisas.

O evento começou com uma apresentação do grupo por parte dos organizadores e
logo de cara foi lançada a pergunta: “Quem aqui se considera um cientista de
dados?”. Para minha surpresa, a maioria das pessoas – inclusive eu – não se
manifestou. Eu não tenho nenhuma teoria sobre o motivo da inibição dos outros
participantes, mas eu não me julgo suficientemente apto em termos de
conhecimentos e habilidades para me chamar de cientista de dados. Porém, com o
decorrer do encontro e das apresentações dos projetos e subsequentes discussões
o meu motivo pra não querer me identificar de tal maneira foi sendo modificado.

Como mencionado, o grupo era extremamente diverso em termos de aplicações e
técnicas. Haviam os mestrandos e doutorandos e seus trabalhos acadêmicos bem
como os funcionários do setor privado e seus projetos que visam aumentar a
produção ou tornar determinado processo mais eficiente.

A cada nova abordagem diferente que era mostrada, um sentimento quasi catártico
de aceitação e acolhimento se instaurava no grupo. A cada nova visão sobre o
que é ser um cientista de dados, a noção se expandia mais e mais.

O que me leva ao título deste post: Eu não vou me chamar de cientista de dados
pela mesma razão que eu não me identifico como hacker, apesar de ser membro
deste hackerspace há quase três anos. No início eu até comprei a premissa da
luta pelo “verdadeiro” sentido da palavra hacker, mas com o tempo eu fui
notando a futilidade deste esforço. Eu me dei conta de que quando o funcionário
da multinacional que trabalha fazendo apps pra iOS pode ser chamado de hacker e
o morador da periferia com seu computador de dez anos atrás fazendo broadcast
da sua rádio pirata também pode ser chamado de hacker ficou claro para mim o
problema com o termo: a falta de poder explicativo. Se apresentar como hacker é
deixar nas mãos da ambiguidade e da interpretação do interlocutor o sentido da
sua frase, e isto é algo que pode não ser desejável – o que não quer dizer que
eu não aprecie a confusão na cara das pessoas quando eu não estou muito afim de
conversar e simplesmente digo: “eu sou um hacker” e deixo morrer ali.

Nesse jogo diário de linguagem, quanto mais abrangente, mais inclusivo um termo
for, menos informação ele carrega e foi esta a conclusão que eu cheguei a
respeito de “cientista de dados”. Se você quiser usá-lo como
instigador da curiosidade alheia, como trampolim pra uma conversa mais
aprofundada, ótimo. Porém se o seu objetivo é clareza na comunicação eu
evitaria me identificar como tal.

No próximo post eu vou atacar um outro assunto que surgiu nesta mesma reunião:
de que maneira a ciência de dados(?) gera valor para a sociedade e para as
empresas.

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