[yait] A respeito do respeito

Este artigo é um YAIT (yet another internet thesis). As visões descritas aqui pertencem somente a mim e não possuem nenhum rigor científico e portanto podem ser facilmente ignoradas.

Volta e meia, quando a circlejerk police do matehackers está ocupada demais pra protestar, surge uma discussão interessante no chat, como por exemplo, sobre a relação entre respeito e argumentação ou debate. A ideia aqui é que abandonar uma discussão com outra pessoa é um sinal de respeito ou reverência. Eu discordo; e como não é a primeira vez que eu falo algo sobre isso resolvi escrever dessa vez.

Não é difícil imaginar que alguém tentaria começar a entender essa questão pela pergunta “Por quê as pessoas argumentam umas com as outras?”. Na realidade, essa pergunta é trivial e oferece pouco espaço para refletir. As pessoas argumentam umas com as outras porque elas são diferentes, possuem interesses diferentes e não estão interessadas em utilizar outros meios de persuasão como por exemplo violência ou suborno.

Muito mais interessante na minha opinião é a pergunta: “Por que as pessoas PARAM de argumentar?”. De acordo com a tese do respeito, uma das razões é em sinal de respeito a outra pessoa. Eu pretendo mostrar que isso é um engano.

Cavando um pouco mais fundo se revela a verdadeira razão pela qual as pessoas param de argumentar: As pessoas param de argumentar porque o custo de continuar argumentando sobrepõe o benefício. Porém, essa frase que beira a tautologia carece de poder explicativo, então, indo mais além, eu decidi enumerar as diferentes situações em que isso acontece. Todas as razões abaixo são instâncias desta causa maior, mas apresentam diferenças relevantes entre si.

  1. Fatiga ou cansaço: A tarefa de argumentar exige um considerável esforço mental. Você não consegue continuar no mesmo ritmo indefinidamente e eventualmente você vai pedir um break. Note que você pode até ter gostado da discussão e estar disposto continuá-la outra hora, mas neste exato momento você prefere ir pro facebook.
  2. O benefício é negligível: A maior parte das pessoas vai concordar que entrar em discussões infindáveis pra decidir o sabor da pizza que vai ser pedida é perda de tempo e vão desistir ou nem sequer participar nesse tipo de disputa.
  3. O benefício é inatingível: Mesmo que você esteja discutindo sobre algo que você considere extremamente importante como homofobia por exemplo, se você notar que a outra pessoa é impermeável aos seus argumentos você vai eventualmente desistir. Note que é possível — e bem comum até — que ambas as partes cheguem a mesma conclusão a respeito uma das outras.

Agora, o que estes três motivos possuem em comum? Todos estes motivos são de natureza egoísta. Em nenhum dos casos há uma preocupação com o interlocutor, apenas a necessidade de pessoal de minimizar o custo de continuar argumentando. De fato a palavra respeito em nenhum lugar se encaixa neste quadro. Ter respeito por alguém implica em um sentimento de reverência que não é demonstrado em nenhum momento nestas situações. Você já mais vai dizer: “puxa como eu admiro esta pessoa por não considerar nenhuma das minhas posições”. A palavra respeito vem do latim “respiciere” ou “olhar de novo”. Este novo olhar que você dirige a pessoa com a qual você não consegue argumentar não é um sinal de reverência, mas sim de condescendência.

Se este é o caso então porque parece tão natural dizer que não argumentar é sinal de respeito? Não é isso que nos diziam quando éramos pequenos? Não argumente com os mais velhos, mostre respeito? Na verdade, essa é uma mentira que nós contamos pra nós mesmos. O ser humano possui uma visão imprecisa a respeito de si mesmo; nós nos enxergamos mais inteligentes do que realmente somos, mais bondosos do que realmente somos e mais tolerantes do que realmente somos . A fim de manter essa imagem mental frequentemente inventamos explicações a respeito do nosso comportamento. A ideia de que paramos de argumentar por razões egoístas não é coerente com a nossa visão de nós mesmos como pessoas bondosas e portanto inventamos a noção de respeito compatível com o bias natural.

Claro que você pode discordar de tudo isso, mas eu não to nem aí, porque te respeito muito, obviamente.

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